Por que os juros bancários são tão altos?

nov/2017

É difícil expressar o esforço necessário para me conter emocionalmente ao responder esta pergunta. De qualquer forma, a resposta é muito simples: porque os bancos gostam de lucro.

É comum ver no jornalismo em geral que quando essa pergunta é feita, as respostas afirmam que os juros são altos porque a inadimplência é alta, os impostos são altos, os bancos têm custos operacionais... Esse tipo de resposta pode ser resultado de desconhecimento ou falta de isenção.

Basta pesquisar na internet as empresas mais lucrativas do Brasil. Os bancos aparecem nos primeiros lugares (Itaú, Bradesco e Santander, nessa ordem), com eventualmente outras grandes empresas no meio, como Petrobrás, Ambev e Vale. Quando se calcula o lucro de uma empresa, as perdas com inadimplência e fraudes estão consideradas, bem como impostos e despesas operacionais. Voltando à resposta, os bancos não reduzem os juros porque não querem abrir mão dos seus lucros, não há outro motivo.

A imagem de uma pessoa comendo um leitão e dando os ossos pro seu cão explica muito bem a atuação dos bancos: o leitão é o endividado que paga juros e o cão é quem faz aplicações financeiras nos bancos.

A atividade econômica dos bancos é intermediação financeira, o que basicamente significa que eles têm a função de estimular o desenvolvimento da economia otimizando o fluxo entre poupança e investimento, mas isso não é feito pelos bancos comerciais.

O único banco que poderia ter feito isso é o BNDES, porém no passado recente operou com taxas subsidiadas (o governo empresta a uma taxa menor do que a que paga, o que significa comprar uma coisa por R$ 10 e vender por R$ 7), corrupção (os projetos escolhidos não são os melhores) e concentração de capital. Se o BNDES tinha a intenção de estimular a produção de carnes no Brasil, deveria financiar investimentos de diversas empresas, não apenas da JBS, e o CADE não poderia ter aprovado a compra de outras empresas pela JBS.

Aliás, a concentração de capital ocorreu com os bancos: Itaú comprou Unibanco, Santander comprou Real, Bradesco comprou HSBC. E com a Ambev, BR Foods,...


A Odebrecht, como muitas outras empresas, precisou se sujar para lucrar algumas centenas de milhões a mais, pois seu poder de influência é externo ao governo, tendo sido obrigada a comprar políticos e outros agentes públicos de forma ilegal. Os bancos lucram bilhões anualmente sem precisar se sujar, pois o seu poder de influência está dentro do governo, via Ministério da Fazenda, Ministério do Planejamento e Banco Central, principalmente. Não dá para saber quanto do lucro dos bancos vem dessa influência, mas sem dúvida seria muito menor se não existisse.

Quando houve a crise de 2008 nos EUA, o governo norte-americano deu dinheiro diretamente aos bancos para que não quebrassem, logo depois que os primeiros quebraram e a crise estourou, deixando muitas famílias com dívidas de habitação sem qualquer proteção. Os bancos se livraram da crise e dezenas ou centenas de milhares de famílias perderam suas casas. Por que o governo não fez a cobertura do sistema quitando as dívidas das famílias com os bancos? O governo americano declarou alguns anos depois que recuperou o dinheiro que deu aos bancos com lucro, tendo sido uma operação vantajosa para os contribuintes, mas poucas famílias recuperaram suas casas, a classe média teve uma perda de renda enorme e a desigualdade econômica lá também aumentou. O Trump foi eleito por causa desse processo. Pode parecer discurso de adolescente rebelde com camisa do Che Guevara, por sinal pessoa admirável, mas infelizmente os bancos estão entre os setores da economia que mais contribuem para a desigualdade econômica, no Brasil e no mundo, se não for o que mais contribui.

Fala-se que as principais causas da crise de 2008, originada nos EUA, foram o subprime (crédito para pessoas que claramente não teriam condições de pagar) e a bolha imobiliária. Mas por trás disso houve um processo de desregulação do setor bancário que começou mais de 20 anos antes, bem como o crescimento do circo especulativo do mercado de derivativos. Quem afirma isso são norte-americanos respeitadíssimos, como o economista Paul Krugman e o professor de política pública Robert Reich. O poder de influência corporativo sobre os governos, especialmente dos bancos, é extremamente nocivo, exceto para quem ganha dinheiro com isso, mas não são muitos. Quem acha que é bom ter empresário no comando dos governos se ilude, trata-se apenas de cortar o intermediário.